Nunca é tarde quando encontramos o sítio certo para recomeçar

Aos 60 anos, Roberto Diniz decidiu pisar o tatami pela primeira vez. Seis meses depois, perdeu 15 kg, deixou a medicação para a hipertensão e ganhou uma nova relação com o corpo e com a mente. A sua história é um lembrete poderoso de que nunca é tarde para começar — basta encontrar o sítio certo para recomeçar.
Talvez não seja tarde. Talvez seja exatamente o momento em que o seu corpo e a sua mente estão a pedir uma mudança real.
Fale-nos um pouco sobre si. Quem é e o que faz no seu dia a dia?
Meu nome é Roberto Diniz. Nasci no Brasil, vivi muitos anos fora, incluindo cerca de dez anos no Qatar, e em 2018 mudei-me definitivamente para Portugal com a minha família.
Profissionalmente, venho de uma carreira executiva ligada à governação, risco, conformidade, segurança da informação, cibersegurança e continuidade de negócio. Hoje atuo no contexto do Ministério da Saúde, numa área onde a exigência técnica, a responsabilidade e a pressão fazem parte do dia a dia.
Durante muitos anos, a minha rotina foi essencialmente mental: decisões, reuniões, problemas complexos, pressão profissional e pouco espaço real para o corpo. O Jiu-Jitsu veio alterar profundamente esse equilíbrio.
O que o levou a experimentar o Jiu-Jitsu aos 60 anos?
Quando comecei, em janeiro de 2026, estava com 98 kg, era sedentário, tinha pouca mobilidade e tomava medicação para controlar a pressão arterial. Havia uma consciência muito clara de que precisava de mudar, mas também havia a dúvida natural: "Será que ainda consigo?"
O Jiu-Jitsu surgiu como uma resposta muito concreta. Eu não procurava apenas uma atividade física. Procurava algo que me obrigasse a estar presente, a sair da cabeça, a recuperar o corpo e a enfrentar uma mudança real. Aos 60 anos, percebi que não precisava de uma promessa fácil. Precisava de um desafio verdadeiro.
Já conhecia a modalidade antes de começar? O que pensava sobre ela?
Sim, já conhecia o Jiu-Jitsu. E foi precisamente por conhecer minimamente a modalidade que me senti motivado a experimentar.
Eu sabia que não era apenas um desporto de força. Sabia que envolvia técnica, estratégia, controlo emocional, resistência, humildade e capacidade de adaptação. Também sabia que, pela sua intensidade e exigência mental, poderia ser uma forma muito eficaz de me desligar do stress profissional.
O que eu ainda não sabia era o impacto que teria em mim.
Teve algum receio antes do primeiro treino? Qual?
Tive muitos receios. O primeiro era muito simples: não conseguir acompanhar. Tinha consciência de que provavelmente nem o aquecimento seria fácil para mim.
Também havia o receio físico. Aos 60 anos, sedentário, com excesso de peso e baixa mobilidade, existe sempre aquela pergunta silenciosa: "Será que o corpo vai aguentar?"
Mas havia também algo mais profundo: o receio de me expor. De entrar num ambiente onde todos pareciam saber o que estavam a fazer e eu não conseguir acompanhar sequer o básico. Esse foi talvez o maior obstáculo antes de pisar o tatami.
Como foi a sua primeira aula de Jiu-Jitsu?
A primeira aula ensinou-me imediatamente uma das grandes regras da faixa branca: sobreviver ao treino, ao estilo da famosa frase: Live today to fight tomorrow.
Quase não aguentei o aquecimento que hoje faço com tranquilidade. Senti vergonha, senti as minhas limitações, senti claramente o peso de anos de sedentarismo. Mas, ao mesmo tempo, percebi algo decisivo: ninguém estava ali para me julgar e, de certa forma, em maior ou menor grau, todos passaram por isso.
Desde o início recebi muito apoio. Os colegas ajudaram, a nossa professora Josy garantiu a orientação técnica de qualidade, e tudo aconteceu com uma naturalidade que me deu segurança. Saí exausto, mas com um pensamento muito claro:
Amanhã eu volto.
E voltei.
O que mais o surpreendeu nestes primeiros meses de treino?
Sem dúvida, a solidariedade.
No início, eu sentia vergonha. Tinha medo de estar a atrapalhar o treino dos outros com as minhas limitações. Mas a verdade é que nunca senti isso vindo dos colegas. Pelo contrário.
Em todas as faixas e graus, encontrei pessoas dispostas a ajudar. Alguns explicam com paciência, outros ensinam através da intensidade, outros simplesmente ajustam o ritmo para que possamos aprender. Cada um à sua maneira, mas todos dentro do mesmo espírito: ninguém evolui sozinho.
Essa descoberta foi muito forte para mim.
Que benefícios já sentiu, tanto a nível físico como mental?
A nível físico, os resultados foram muito objetivos.
Transformação em 6 meses
Mas a transformação mental talvez tenha sido ainda mais importante. Quanto mais stressante é o dia, maior é a vontade de ir treinar. Ao pisar o tatami, o stress fica do lado de fora.
O Jiu-Jitsu exige atenção plena. Obriga-nos a estar no corpo, no momento, na respiração, no movimento do outro e no nosso próprio limite. Nesse contexto, não há espaço para ruminação mental, ansiedade ou excesso de ruído interno.
Quando saio do treino, os problemas continuam a existir, mas já não os encontro da mesma forma. A perspetiva muda.
Como descreve o ambiente e as pessoas da EBJJ Portugal?
A EBJJ Portugal tem uma mistura muito especial de fraternidade, igualdade e suporte mútuo.
O Jiu-Jitsu é um desporto exigente. Todos sabemos que existem riscos, todos temos limitações e todos somos confrontados com dificuldades. Mas, quando estamos nos "rolas", muita coisa se nivela. O ego perde força e o respeito ganha espaço.
Os colegas mais graduados têm paciência para ensinar, cada um com o seu estilo. Os colegas da mesma graduação também partilham o que sabem, testam, erram, aprendem e ajudam. Existe ali uma cultura muito própria, em que o progresso individual depende muito da qualidade do grupo.
E isso faz toda a diferença.
Se pudesse voltar atrás, teria começado mais cedo? Porquê?
Com a mais absoluta certeza. Teria começado anos, talvez décadas antes.
Não digo isto por ambição de graduação ou por imaginar que hoje teria uma determinada faixa. Digo isto pensando na saúde.
Se em apenas seis meses consegui transformar tanto o meu corpo, a minha mobilidade, a minha condição física e até a minha relação com a pressão arterial, é inevitável pensar no tempo que perdi. Quantos anos de limitação física poderiam ter sido evitados? Quanto desgaste, quanta medicação, quanta energia perdida?
Mas não olho para isso com arrependimento pesado. Olho como uma lição. Comecei quando estava pronto para começar. E isso também tem valor.
O que diria a alguém da sua idade que gostaria de experimentar Jiu-Jitsu, mas acha que já é tarde para começar?
Eu provavelmente mostraria os meus resultados e depois tentaria levar essa pessoa para uma aula experimental.
Porque o Jiu-Jitsu não se explica completamente em palavras. É preciso sentir. É preciso pisar o tatami, perceber o ambiente, experimentar o movimento, sentir a dificuldade e também o apoio.
A quem pensa que já é tarde, eu diria: talvez não seja tarde. Talvez seja exatamente o momento em que o seu corpo e a sua mente estão a pedir uma mudança real.
Mas não basta imaginar. É preciso experimentar.
Quais são os seus objetivos daqui para a frente no Jiu-Jitsu?
Vou ser muito honesto: hoje quero a faixa azul.
Curiosamente, quando comecei, dizia que não estava à procura disso. E, de certa forma, continuo a não estar à procura da faixa em si. O que mudou foi a compreensão do que ela representa.
Tive a oportunidade de participar numa graduação onde recebi o meu primeiro grau. Mas o que mais me marcou foi ver a receção dos colegas que alcançaram a faixa azul. Aquilo não era apenas uma mudança de cor na cintura. Era um rito de passagem.
Havia ali um sentimento tribal, de reconhecimento, de pertença e de celebração do esforço. Era como se o grupo dissesse:
Nós vimos o teu caminho. Tu chegaste até aqui.
É isso que me atrai. Não a faixa como objeto, mas aquilo que ela simboliza.
Numa frase, o que significa o Jiu-Jitsu para si hoje?
Para mim, o Jiu-Jitsu é superação, presença e conquista sobre mim próprio.
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